Autor sueco lança novo livro da saga ‘Millennium’ e diz que não será Stieg Larsson para sempre

Quando aceitou continuar a escrever a série “Millennium” (Companhia das Letras), sucesso editorial criado por Stieg Larsson que vendeu 80 milhões de cópias até hoje, o jornalista sueco David Lagercrantz sabia que a tarefa traria doses iguais, e altíssimas, de expectativa e responsabilidade. Ao todo, foram impressos 2,7 milhões de exemplares do novo volume da saga protagonizada por Lisbeth Salander. “A garota na teia de aranha” chegou às livrarias ontem e foi publicado simultaneamente por 26 editoras de todo o mundo. O autor — que antes havia feito livros de relativa repercussão, como a biografia do craque Zlatan Ibrahimovic — viu seu trabalho envolto em esquema de lançamento somente comparável aos de grandes best-sellers.

— A magnitude do projeto é impressionante — diz Lagercrantz, enquanto revela a própria insegurança. — Houve momentos em que eu duvidei ser capaz de escrevê-lo. Tive medo de que o livro não fizesse jus à reputação da saga. Essa desconfiança me ajudou. Se achasse a tarefa era fácil, não ia produzir algo realmente bom.

O autor contou ter tido pesadelos enquanto trabalhava no romance: sonhava que a protagonista, uma hacker que vive sendo perseguida pela polícia, estava insatisfeita com os rumos que deu a ela. Ele garante que, no entanto, não tentou reproduzir o estilo de escrita de seu predecessor:

— É claro que tentei usar um pouco da técnica que ele empregava, aquilo que fazia com que os leitores devorassem os livros rapidamente — explica. — A constante troca de perspectiva, por exemplo. Mas entendi que não podia imitar Larsson. Ele era um repórter como eu, então pude usar minha própria prosa jornalística.

LAÇOS DE SANGUE

Larsson morreu em 2004 sem ver o lançamento do primeiro volume da série, “Os homens que não amavam as mulheres” (Companhia das Letras), em 2005. Vítima de um infarto aos 50 anos, ele deixou os três primeiros livros da saga prontos (“A menina que brincava com fogo” e “A rainha do castelo de ar”, ambos da Companhia das Letras, completam a trilogia). O autor tinha planos para fazer outros sete.

Como a legislação da Suécia privilegia laços de sangue para determinar os herdeiros, o pai e o irmão do jornalista, Joakim e Erland Larsson, passaram a ser responsáveis pelo espólio, que se transformou em um sucesso editorial. Eva Gabrielsson, que viveu com o autor por 30 anos, não teve direito a opinar sobre os rumos do legado do marido. Ela tampouco recebeu royalties pelos livros e pelas adaptações cinematográficas — a trilogia virou filme na Suécia e o primeiro volume ganhou versão hollywoodiana em 2011, com Daniel Craig e Rooney Mara nos papéis principais.

Em entrevista à agência AFP, em março deste ano, ela declarou que não desejava ver novos volumes da série “Millennium” à venda: “Eu não prosseguiria com o trabalho de Stieg. Aquela era sua linguagem, sua narrativa singular”. Por conta da discordância entre a viúva e a família, Lagercrantz não teve acesso ao manuscrito, de mais de 200 páginas, que Stieg Larsson preparava quando morreu. Gabrielsson garante que não planeja publicá-lo.

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— Tenho um profundo respeito pela opinião dela — diz Lagercrantz para, em seguida, argumentar: — O assunto envolve questões éticas, e essa é a parte que me deixa triste. Gabrielsson disse nos jornais: “Deixem que os livros de Larsson descansem em paz”. Eu vivo com autores e nunca encontrei nenhum que queira ver suas obras esquecidas, eles querem ser lidos. Tenho certeza de que a continuidade da série é ótima para o legado de Larsson. Uma nova geração está lendo seus romances e descobrindo este homem que lutou contra o racismo e a extrema-direita na sociedade sueca.

Em carta publicada em um jornal local, os herdeiros justificaram a opção. Eles também acham que publicar novos livros é uma maneira de perpetuar a contribuição de Larsson. Joakim e Erland garantiram que o lucro será revertido para a revista “Expo”, fundada pelo autor. A publicação tem histórico de atuação política no país e era um dos grandes orgulhos do jornalista.

Os familiares citaram outros sucessos que trocaram de mãos. “Vale lembrar que a história da literatura está repleta de exemplos de sequências escritas após a morte do criador original dos personagens, do James Bond de Ian Fleming à Agatha Christie de Sophie Hannah”.

A produção de “A garota na teia de aranha” foi cercada de mistérios e medidas de segurança que deixariam a protagonista Salander orgulhosa. Para evitar vazamentos, o autor escreveu o livro em um computador desconectado da internet e usava pen drives para entregá-lo à editora. Ele conta que mostrou o manuscrito a poucas pessoas e, quando precisava discutir o livro com alguém, conversava em códigos.

— Foi uma opção da minha editora. Quando fui convidado a escrever (em 2013), muita gente voltou os olhos para mim. Não era autorizado a falar sobre o livro por e-mail, e tinha que usar palavras-chave. Era um paradoxo: escrevia sobre o mundo dos hackers enquanto me preocupava em estar sendo vigiado.

Para dar continuidade à trama de Salander e do jornalista Mikael Blomkvist, Lagercrantz escolheu abordar temas atuais. Enredados em uma teia de conspirações, enfrentam espiões de toda sorte, inclusive agentes da Agência de Segurança Nacional dos EUA, NSA.

— No tempo de Larsson, os crimes cibernéticos eram cometidos por pessoas fora da lei. Agora, é uma política de estado.

Salander, filha de um ex-agente da KGB que desertou, é uma personagem complexa, que sofreu diferentes tipos de abuso na infância. Para incorporar a personagem, Lagercrantz diz que, primeiro, precisou entendê-la:

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— Tive que quebrar o código de Lisbeth. O passado tem influencia crucial em sua personalidade. Posso dizer que acrescentei um pouco mais de escuridão a ela. Tentei responder a questões que Stieg não respondeu por conta de sua morte repentina — explica.

Feliz com as resenhas, que dizem que os personagens sobreviveram à troca de autores, Lagercrantz não faz planos. E diz que não sabe se irá escrever mais um volume da série “Millennium”:

— É tentador, mas existem outras boas ofertas. Posso dizer que não serei Stieg Larsson por toda minha vida.

Fonte: O Globo

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